ENY: We…

Esta é uma história de amor na babilônia, que eu – Lígia – tive e tenho o prazer de acompanhar! Uma, entre as milhares de histórias de anônimos que acontecem em cada janela de NY. Há cenário melhor que NY para se viver um grande amor!?

*por Izabella Bellenda

Já não fazia tanto frio.

Não, mentira. É sair da estação de metrô pra entender que o inverno em NY é sim um pé no saco e que em março ele continua firme e forte. Meia fina, um erro. Mas o preço a se pagar para um date.

New Yorkers fazem reserva em restaurantes. Brasileiros ligam avisando que vão se atrasar. E naquela noite eu estava atrasada, como sempre, como em tudo. “Can you hold, please?” Eu precisava correr. Como sempre, como pra tudo.

O trem era o G, que sempre atrasa, sempre demora, para no meio do caminho, da noite, do nada. Ele, na direção Church Av, eu Court Sq. Sabia que corria o perigo de encontrar ele no meio do caminho, ali na Lorimer. Eu tinha que correr!

Em uma mão eu levava uma rosa vermelha e na outra, um chapéu verde. Na cabeça, a ideia fixa de pedir desculpas. Até que aquele chapéu e o incansável casaco azul de lã dele se destacaram no meio da multidão de sábado à noite. Precisava correr. A flor, o chapéu, as desculpas, era tudo parte da surpresa. Ele não podia me ver.

Rindo nervosamente de canto de boca e de boca de estômago, acompanhava ele de longe. Eu tinha que pegar o próximo trem pra Manhattan, não perder o cara de vista, fingir que não existia, acompanhá-lo no outro vagão pela janelinha do trem, reconhecer o chapéu preto na multidão e ver que rumo ele ia tomar pra chegar ao mesmo destino que eu.

East Village. Metade do mundo desce. Ele pegou a 1. Av., como seria de se esperar. Segui pelo outro lado da rua, olhando, olhando, olhando, até virar na 12th e começar a correr.

Ofegante, desesperada, atrasada eu corria em direção ao Jules*,  restaurante onde ele sempre quis ir pra jantar ouvindo uma banda de jazz. Na 2. Av., as pessoas riam, andavam, falavam, fumavam, caminhavam e só eu corria. Eu me sentia atrasada, eu me sentia desesperada, sentia o vento gelado bater contra mim, sentia o celular vibrando no bolso e a vida gritando dentro de mim.

Faltava um mês. Para eu ir embora, para o nosso casamento, para os documentos ficarem prontos, para todas as dúvidas do futuro. Faltava um mês. Eu ia me separar dela, da babilônia. Eu ia me separar dele, o meu amor. Então, corria. Faltava apenas um mês.

Diminui o passo pra entrar na St. Marks Pl. Ele já estava lá, me ligava desesperadamente pra saber se eu ia me atrasar 40 minutos, como sempre. Mas eu não atendia. Caminhava e olhava pra trás. Para a 2. Av., para os últimos meses de relação, para o último ano, para a minha chegada em NY, para minhas escolhas. Até que aquele sorriso encontrou a rosa vermelha, o meu chapéu verde e o meu atraso. Em silêncio, ele aceitou. O romance, a cidade, a ida, a confusão, o que tivéssemos pela frente. Faltava apenas um mês.

No fim da noite, sem pressa, no trem, voltando pra casa, um casal sentado próximo olhava nossa rosa na mão dele e ria, comentava em outra língua que não entendíamos de maneira alguma. Se beijavam e se abraçavam, concordando sobre qualquer coisa.

Na leveza deles, entendi que talvez eles também não soubessem o que tinham pela frente.
Mas não tinham pressa, não queriam correr. E até que fossem dormir, naquela noite pelo menos, sabiam que podiam ser felizes. Nem que fosse até o dia seguinte. Até o próximo pedido de desculpas. Até a próxima rosa vermelha. Porque… “we will always have NY!”.

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Foto 1:  O chapéu verde…  Que foi comprado no meu brechó favorito de toda NY, o Fox and Fawn. Lá você encontra muita seleção de peças vintage e retrô, com preço muito mais que acessível. Esse que eu estou falando é em Greenpoint, o bairro em que eu morava nessa época. Mas agora parece que abriram um novo em Bushwick. Ainda não conheço, mas vale a tentativa. Em NY sempre vale a tentativa.

Foto 2: Essa é a rosa vermelha e esse, o Miguel. Meu namorado, marido, romance, amigo, parceiro que divide comigo uma paixão imensa e maluca, às vezes meio masoquista, pela babilônia.

1* – Dica: O Jules é um restaurante na St. Marks Pl. Culinária francesa, com um toque americano. Eles têm jazz ao vivo em alguns dias da semana. Vale a pena. Mas faça reserva, ha-ha-ha.
{E depois aproveite pra se perder na St. Marks Pl, claro. E tome um drink no Simone, na esquina com a 1. Av}

*Izabella Bellenda é jornalista e dramática. Não, não sabe cozinhar.

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