Dilemas da Ivana + Projeto Único

Ivana começou o Dilemas da Ivana de maneira despretensiosa e logo seus desenhos se tornaram uma forma de libertação dos velhos padrões e conexão com o mundo. Seus quadrinhos são acolhedores e nos dão aquela sensação de não estarmos sozinhos – com nossos dilemas – no mundo.

Gente como a gente, ela já se cansou de usar maquiagem e muitas vezes seu look do dia preferido é o pijama de domingo. Existe algo mais diva nesse mundo do que buscar ser você mesma? Ivana entende como poucos que consumir informação de moda não é a mesma coisa que consumir todos produtos que a moda oferece! Como ela mesma diz em uma tirinha:  “Sou fashion, só que por dentro!“. Boa leitura!

PUivana

Ivana Amarante Bombana // 27 anos // ilustradora e designer // Florianópolis – SC – Brasil

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Iza – Ivana, Eu nunca vi ninguém tão firme diante do maravilhoso mundo dos brechós de NY. Vi você dizer mais não para peças de roupa do que as pessoas dizem para convites para jogar Farm Ville no Facebook. De onde vem toda essa desenvoltura para lidar com os gastos?

Ivana – Eu nunca tive muito dinheiro pra comprar, então sempre vou a lugares bem baratos. Fico de olho nas coisas, namorando até acabar sempre na arara de promoção. Tenho olho treinado pra isso. Até porque como designer busco referências, acesso Pinterest, blogs e tudo mais. Mas na prática, acho tudo muito caro, acho que não vale, sempre penso no quanto a loja pagou e por quanto está vendendo. Quando saio pra comprar, experimento algumas coisas, vejo a fila, vou fazendo as contas, acho caro e acabo deixando. Mas por outro lado às vezes vou à alguma loja mais cara, vejo a estampa da peça, o tecido, o corte e se estiver até uns 120 reais, eu invisto. Porque treino meu olhar para ter coisas diferentes. E adoro sair com quem gasta. Eu me preencho, sinto prazer quando a pessoa compra. “Compra guria, compra”. Quando fui pra NY entendi isso. Eu não amadureci, não entendi que estava indo para lá, que aquele era o momento de gastar. Quando voltei e olhei minha mala entendi e agora estou abrindo a mão um pouco. “Vai Ivana, compra”.


Iza – Mas não é exatamente só sobre ser pão dura, né?

Ivana – Não. (rs) Até porque eu fico mal, penso sobre o meu trabalho, sobre desvalorização de nós designers, sobre todo mundo que  estudou para desenvolver aqueles produtos e no fim eu to fazendo a mesma coisa. Por isso prefiro entender uma peça, saber que vale o investimento e por quê. Assim, quanto menos eu pago, mais ela vale, mais linda é se eu paguei menos. O meu sentimento fica como se eu tivesse pagado milhões.


Iza – Isso não te dá aquela sensação de querer guardar a roupa, não querendo “gastar” ela no dia a dia?

Ivana – Talvez, mas como eu não tenho contato com o cliente, eu sento, faço um coque, tiro pulseira, o brinco e trabalho. Eu até me arrumo, mas essa obrigação de estar sempre estar bem eu acho um saco e parei com isso. Tipo, “Ok, eu não vou fazer nada especial, vou colocar um fone, sentar na frente de um computador e essa vai ser minha vida hoje, não tenho por que me arrumar”. Tenho na cabeça que quando me arrumo é tipo ir pra missa antigamente, sabe? Tenho preguiça. Nos dias que você tá menstruada, como você se arruma? Só põe um troço qualquer e vai. Aqui em Florianópolis eu comecei a me soltar mais, usar shorts para ir trabalhar, coisa que não acontecia em Curitiba, por exemplo. A posição geográfica e seu trabalho fazem muito seu estilo, o meio faz você mudar por dentro, reflete essas coisas, eu acho.

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Iza – Tá. Você busca bastante informação, convive com pessoas que consomem na prática essas referências, mas se empenha em escolher as suas a dedo. E a ansiedade, fica onde?

Ivana – Eu acredito que entender de moda não é só para consumir. Eu tenho que entender, porque mesmo não podendo ter, eu preciso apreciar as coisas. Todo mundo sai do shopping sorrindo só se comprou. Observar me faz sofrer menos, acredite. Eu to me atualizando, não to consumindo. E hoje em dia todo mundo conecta muito esses dois fatores: para entender você tem que estar usando. Mas eu gosto de coisas que não são tão óbvias, que não estão lá nas tendências necessariamente. Aquele coquinho assim, a blusinha assado, eu já olho e sei de onde vem tudo aquilo. Mas quando vejo alguém com um look diferente, acho muito mais foda. É uma questão de empenho e expressão e não dá pra ligar o consumo a um preenchimento emocional. Mas muitas vezes não te dão espaço porque pela sua roupa não acham que você está no mesmo nível, que porque você não se veste bem, não entende nada. Mas eu só acredito que não preciso mostrar nada tão loucamente. Eu podia ser mais bem vestida? Sim. Eu sou preguiçosa mesmo, mas se eu quisesse, eu podia. Eu só não quero.


Iza – Preconceito, rola?

Ivana – Sim. Eu acho que profissionalmente, por exemplo, na minha área, algumas pessoas valorizam mais pelo estilo que pela capacidade. Parece que isso torna alguém mais competente e talvez porque chame mais a atenção, são colocadas em outro patamar. Mas também sei que eu não posso ter preconceito com quem faz escolhas diferentes das minhas. Vejo meninas indo trabalhar super produzidas e às vezes acho que elas estão comemorando todos os dias o fato de estarem vivas. É o jeito que elas se expressam e eu respeito isso. Convivo muito com pessoas que se arrumam bastante e comecei a perceber que isso se tornou normal para mim, é quem ela é. Eu vejo apenas que eu sei que posso conversar de moda de igual para igual com qualquer um e inclusive, poderia montar um look, se eu quisesse. Mas eu faço outras escolhas.

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Iza – Ivana e que conversa é essa que você parou de usar maquiagem porque achou que já não sabia direito quem você era? Crise existencial?

Ivana – Eu comecei a notar que me olhava no espelho sem maquiagem e me achava muito feia. Corria passar uma base, um rímel e um blush e me sentia melhor. Até que tive que ir ao médico porque estava com muita espinha e ele disse que eu tinha que ficar um tempo sem. Foi assustador. As pessoas achavam que eu estava doente. Nesse processo eu comecei a pensar no por que eu não gostava de mim, por que não me aceitava sem maquiagem e fui buscar no meu passado essas respostas. Lembrei que com 15 anos eu me achava bonita.

Hoje, eu tenho o mesmo nariz, os mesmos olhos, cabelo e então, notei que era um problema de auto estima e insegurança. Me propus a ficar um mês sem maquiagem, mas foi difícil. Quando eu me arrumava parecia uma montagem: a cara não combinava com o look. Isso me gerava uma angustia enorme e nas primeiras semanas eu nem me olhava no espelho. Mas na terceira eu já conseguia ter uma visão mais ampla sobre todo o complexo que estava na minha cabeça. Eu sobrevivi, as pessoas se acostumaram, as espinhas diminuíram e a pele melhorou. Era uma questão de hábito e eu consegui quebrar isso, além de levar a outros níveis. Comecei a buscar por uma alimentação melhor e mais saudável, por exemplo. Acima de tudo, me vejo me aceitando e vivendo melhor. Foi um momento de inconsciente coletivo, inclusive. Logo depois começou essa onda das famosas sem maquiagem, agora as redes sociais com campanhas disso. Eu vivi sozinha, mas todo mundo estava na mesma. Cara lavada, menos cobrança. Essa é a tendência.

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