Sobre comprar tesouros!

O último ano foi de grandes mudanças internas pra mim. Depois que comecei a fazer a curadoria dos tours de moda, conhecer toda a história e processos dos designers, mudei meu conceito sobre compras. Sobre o adquirir e dar valor as coisas. Não tenho mais vontade de consumir fast fashion, nem de ser conivente com uma indústria que muitas vezes não é honesta com os clientes a respeito da sua cadeia produtiva.

Sempre considerei minhas roupas verdadeiros tesouros e eram mesmo. Há alguns anos, 70% do meu closet era feito de peças herdadas da minha mãe. Peças da sua juventude, que ela mesma havia desenhado e uma costureira confeccionado. Eu amava. Anos passaram, aumentei de peso e nada mais entrou. Comecei a comprar roupas no modo “este corpo não é meu”. BANG. Engordei mais ainda e as roupas passaram a não ter mais tanto valor, a não serem amadas, porque estavam relacionadas com aceitar o novo corpo. Foi uma fase de merda. Comprei muita coisa errada. Mas fui aprendendo.

Eu Lígia, sinto que cheguei ao meu limite. Estou saturada de informação, saturada do ver na internet, do “vi na blogueira portanto quero”, de whishlists. E de “achados” terem sido banalizados a posts com links redirecionados para venda. Acho que os tours são um pouco sobre isso. Sobre nossa necessidade de achados na vida real.

Na minha humilde opinião, um novo pensamento sobre consumo já começou. E não tem a ver apenas com vestir o que valoriza o seu tipo de corpo e traduzir quem você é. Vai além, passa por respeitar o espaço do outro e também por prestar mais atenção na vida offline. Afinal, atrás de cada roupa que você usa está a história de alguém. A história da roupa não começa em você. Ela começa lá no algodão. Lá na casa da costureira que pregou o último botão. Será que essa peça que você usou contaminou um rio? Será que foi feita sob algum regime de escravidão? Não dá pra bitolar e tentar ter o controle de tudo isso. Não dá. Mas dá pra prestar atenção e começar a fazer escolhas diferentes.

Meu Buenos Looks de hoje, é todo da Lulu Martins. Fui buscar a saia que estava para ajustar (viva!) e fizemos as fotos. Quem fotografou foi Valeria Markulin (irmã da Lu). Nesse dia tomei café com sua família e conheci o atelier onde sua mãe costurou as peças da foto e também meu vestido vermelho do casamento. Se hoje em dia é o storytelling que conta, não existe nada melhor que uma história verdadeira. Quando levo clientes no showroom da Lu ou de outros designers, compartilhamos um pouco dos sonhos e da história da pessoa. Aprendemos sobre como é fazer moda em Buenos Aires. E olha, senta que lá vem história. Acho que eu não tinha ideia de quanto essa minha ideia iria se desenvolver e mudar a mim mesma. E gente, eu tenho gorduras. Aceitei. Fim. Beijos.

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UPDATE: Ao ler o post, uma amiga me passou o link do MODA LIVRE, um aplicativo que permite que o consumidor saiba se uma marca está de acordo (ou não) com a legislação trabalhista brasileira. É possível fazer o download do aplicativo no site da Apple Store e do Google Play.

UPDATE 2: Três dias depois deste post ter sido publicado tomei conhecimento do reality show SweetShop, que levou blogueiros do leste europeu para conhecer o dia a dia dos trabalhadores de uma fábrica no Camboja. Que tristeza de mundo e que bom que ainda existe gente aceita o desafio de mudá-lo!


Blusa e saia: Lulu Martins // Sapato: Arezzo // Foto: Valeria Markulin


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5 comentários sobre “Sobre comprar tesouros!

  1. annakuhl disse:

    Ai Lígia! Primeiro que coisa linda essa blusa e a saia, já sou fã da Lulu desde a primeira peça que você mostrou aqui, suspirei com o vestido do seu casamento civil, enfim.
    Estou super num momento parecido com o seu – de aceitar meu novo peso (que não é tão novo, custei a me conformar e também comprei muita coisa errada). De não consumir nada sobre o qual eu não possa ficar confortável com o processo que fez aquilo, principalmente roupa – que já quase não compro, e quando o faço, é mais brechó e costureira. Até pensei em fazer disso um #projetohashtag do tipo “nunca mais compro em fast fashion na vida”, mas não é só isso, tem a ver com mais coisas, como autoestima e aceitação, por isso me prometi um projeto revisão do guardaroupa, muito dentro destes parâmetros que você fala no post.
    Beijão linda <3

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